O Assassinato dos Richthofen
- Sabrina M. Szcypula
- 1 de jul. de 2023
- 17 min de leitura
A morte do casal de classe alta, Manfred e Marísia von Richthofen, a mando da primogênita da família, Suzane von Richthofen.

O caso da família Richthofen é em referência ao homicídio de Manfred Albert von Richthofen e Marísia von Richthofen, um casal de classe alta em São Paulo que foi brutalmente assassinado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, a mando da própria filha, Suzane von Richthofen.
Daniel e Suzane eram namorados há vários anos, por mais que o relacionamento não tivesse apoio de suas famílias, principalmente por parte dos Richthofen. E em uma tentativa de acabar com esse impedimento e ficar com a herança, Suzane, Daniel e Cristian arquitetaram um plano onde iriam simular um latrocínio e tirar a vida dos pais de Richthofen.
Integrantes da família von Richthofen e Cravinhos
Manfred Albert von Richthofen, nascido no dia 3 de fevereiro de 1953, foi um engenheiro formado pela Universidade de São Paulo (USP), provindo de uma família aristocrata da Alemanha mas naturalizado brasileiro. Segundo fontes, a família aristocrata veio a perder grande parte de suas posses e influência, principalmente devido à queda do Império Alemão em 1918 e da participação importante da nação na Primeira (1914-1918) e Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Apenas de ter dito em certo ponto de sua vida em uma entrevista ao já inexistente Jornal da Tarde, que era sobrinho-neto de Barão Vermelho, a própria família presente na Alemanha negou qualquer parentesco com o piloto de caça.
Marísia von Richthofen (de batismo Silva Abdalla), nasceu no dia 19 de janeiro de 1952, em José Bonifácio, provinda de uma família de classe média. Ela se formou em medicina pela USP, onde conheceu o marido na década de 1970, e abriu o próprio consultório de psiquiatria em São Paulo, após terminar sua faculdade.
Suzane Louise von Richthofen nasceu no dia 3 de novembro de 1983, em São Paulo, sendo a filha primogênita do casal von Richthofen, e tendo cursado direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). 4 anos após o nascimento da garota, no dia 23 de abril de 1987, o filho caçula, Andreas Albert von Richthofen nasceu, complementando a família. Segundo os vizinhos da casa onde a família morou por quase quinze anos, os quatro eram conhecidos como “a família Doriana”, não apresentando nenhum problema aparente. Os irmãos inclusive sempre foram muito próximos um do outro, e segundo uma ex-funcionária, “Nunca vi os dois brigarem. Eles conversavam muito e se davam bem”.
Andreas supostamente teria escrito um bilhete para a irmã pouco após tudo ser descoberto, onde dizia lhe perdoar e ainda à amar, no entanto, segundo o promotor Roberto Tardelli e o tio e responsável legal por Andreas, Miguel Silva Abdalla, o bilhete foi forjado por Suzane e seu advogado.
Os irmãos Cravinho eram dois dos três filhos do casal Nadja e Astrogildo Cravinhos de Paula e Silva, que ainda tinham o filho mais velho, Marco, casado e conhecido por ser o que mais ajudava financeiramente os pais. Daniel era o caçula e dedicava-se desde os 13 anos ao aeromodelismo, sendo campeão paulista, brasileiro, pan-americano, sul-americano e o quinto melhor do mundo em 1998 em um campeonato em Kiev, na Ucrânia. Cada um dos aviões que produzia eram vendidos por 1,4 mil reais na época, sendo esta sua maior fonte de renda.
Já Cristian, o filho do meio, diferentemente dos irmãos, era conhecido por ser um filho problemático. Costumava consertar motos e era usuário de drogas durante aquela época, tendo até mesmo sido internado em uma clínica de reabilitação. Por mais que tivessem suas diferenças, os irmãos eram inseparáveis e sempre estavam dispostos a se ajudar, foi isso que levou Cristian a entrar com o irmão no plano contra a vida dos von Richthofen.
Breve histórico
Em agosto de 1999, a família von Richthofen conheceu Daniel durante um passeio no Parque Ibirapuera. Andreas se interessou pela prática recreativa de aeromodelismo e pediu aos pais para realizar um curso com Daniel, desejo esse que foi concedido.
Segundo antigas amigas de Suzane, foi Andreas quem ajudou a irmã a se aproximar de Daniel, após a garota ter demonstrado interesse em Daniel, e inicialmente a família não se importou com o relacionamento, acreditando que era algo passageiro. Andreas inclusive estava constantemente com a irmã e o namorado, tendo inclusive experimentado maconha com os dois pela primeira vez.
Com o relacionamento se tornando mais sério, Manfred e Marísia começaram a se tornar mais resistentes com o envolvimento. Como Daniel recebia dos aviões que produzia e de peças para aficionados, Suzane constantemente pedia mais dinheiro ao pai para emprestar ao namorado e lhe dar presentes, o que fazia o casal pensar que Daniel poderia estar apenas se aproveitando da filha. Outro ponto que também os preocupava era a influência negativa de Cristian, que naquela época estava internado por dependência e tinha dívidas com traficantes.
Segundo os amigos de Suzane e Daniel, era muito difícil encontrá-los um sem o outro, mesmo na faculdade de direito de Suzane, Daniel sempre estava presente nas atividades como em uma visita ao Fórum João Mendes Júnior e à ALESP. Para algumas fontes, isso se dava ao fato de que a família de Suzane não era muito amorosa, talvez devido aos costumes alemães do patriarca, o que fez a - na época - adolescente ver o namorado como a única pessoa que era carinhosa com ela, por mais que fosse de uma maneira quase obsessiva.
No fim de 2001, os pais de Suzane começaram a tentar convencer a filha a dar um fim no relacionamento, principalmente após descobrir do envolvimento de Daniel com maconha e que Suzane estava perdendo o foco dos estudos, principalmente usando como argumento o fato da jovem não ter passado no vestibular da USP, mas o namoro foi definitivamente proibido após os pais descobrirem que Suzane passou a noite em um motel com o namorado, ao invés de ir na casa de uma amiga, como realmente tinha informado.
Após isso, a família vivia em constante conflito, sempre brigando com a primogênita pelo relacionamento que continuava às escondidas. No início de setembro de 2002, o 12° Batalhão da Polícia Militar de São Paulo foi acionado para apartar a briga de Manfred e Daniel, onde os encontraram transtornados um com o outro enquanto gritavam na frente da residência. Além desse momento, a polícia já tinha sido chamada anteriormente outras duas vezes.
O relacionamento perdurou até alguns meses dentro da prisão, mas um bilhete escrito por Daniel em 2004 revelou que o relacionamento já estava chegando ao fim. Nele, era dito “Não sei por que você não fala mais com os meus pais e nem comigo, será que não confia mais em mim?”
Planejamento prévio
Durante os 2 anos de relacionamento de Suzane e Daniel, o casal constantemente discutia diferentes formas de tirar Manfred e Marísia de suas vidas, não necessariamente matando-os, mas apenas fugindo e vivendo da forma como bem entendiam. No entanto, as coisas começaram a mudar e a vontade de tirar a vida do casal cresceu.
O casal de namorados tinha uma fantasia muito vívida de que, após livrarem-se da presença dos von Richthofen, os dois teriam uma vida maravilhosa juntos, sem nenhum tipo de empecilho externo, além de todo o acesso à herança de Suzane, o que lhes proporcionaria uma boa vida.
Na tarde do dia 30 de outubro, o dia anterior ao crime, Suzane e Daniel fizeram testes com uma arma com o objetivo de checar se o barulho poderia ser ouvido fora de casa. Ao terem a confirmação de que sim, os planos foram alterados.
Nesse meio tempo, Suzane chega a desistir do crime e aceitar a proibição imposta pelos pais, no entanto, em um ato de manipulação e obsessão, Daniel ameaçou cometer suicídio caso o relacionamento dos dois tivesse um fim, o que fez Suzane voltar a concordar em realizar o crime, no entanto ela não queria ver a cena.
Daniel procurou pelo irmão para que este ajudasse na realização do crime, e em primeiro momento, Cristian negou qualquer envolvimento com o caso, alegando que "Não vou participar, a gente vai ser pego! Eu não sou um criminoso e vou falar para os nossos pais", o que faz o mais novo dos irmãos também desistir do crime.
Dessa vez, é Suzane quem decidiu manipular Daniel para fazê-lo voltar a querer cometer o crime, mentindo que seu pai abusava sexualmente dela desde que tinha 14 anos, e pedia para o namorado lhe ajudar nessa situação. Em 2004, a própria Suzane admitiu em uma entrevista para a revista Quem que isso nunca foi verdade.
Segundo depoimentos, Cristian apenas topou participar de tudo ao ver que o irmão realmente não mudaria de ideia, principalmente depois de saber do suposto abuso sexual. "Eu entrei [no plano] por amor ao meu irmão, porque eu sabia que ele não ia ser capaz de matar os dois sozinho." Disse o réu, completando que, pouco antes de entrarem na casa para cometer o crime, afirmou que "Estamos juntos nessa, mas a gente vai se dar mal".
No preparo do plano, Suzane chegou a separar alguns sacos e luvas cirúrgicas para tentar esconder as provas do crime, tudo sendo calculado e utilizado posteriormente no crime. Também foi decidido que Daniel seria responsável por tirar a vida de Manfred, enquanto Cristian iria fazer o mesmo com Marísia.
Outro ponto que aconteceu foi que, dias antes do plano ser posto em prática, Suzane desligou o alarme da casa e as câmeras de segurança, evitando assim qualquer filmagem dos três chegando na residência, e por ter sido em dias de antecedência, ela supôs que não levantaria tantas suspeitas.
Assassinato
No dia 31 de outubro de 2002, Suzane e Daniel tiraram Andreas de casa, que na época tinha 15 anos, com a desculpa de levá-lo em um Cyber Café para se distrair, convencendo o adolescente de que não iria para a escola no dia seguinte, então não teria maiores problemas em ficar no estabelecimento até tarde. Dessa maneira, conseguiram fazer com que Andreas não tivesse nenhum envolvimento no crime, além de evitar que este fosse uma testemunha.
Depois de deixarem o adolescente no estabelecimento, os dois começaram a se preparar para cometer o crime, cumprindo cada parte do plano de maneira meticulosa.
Após saírem do Cyber Café, o casal rumou até uma rua próxima ao local para buscar Cristian, já que o trio tinha combinado do homem encontrá-los no lugar para economizar tempo. Em seguida, os três seguiram para a mansão dos von Richthofen, utilizando o carro de Suzane como transporte.
Armados com barras de ferro ocas e totalmente vestidos para evitar que caíssem pelos pela casa, evitando assim qualquer prova de DNA, os irmãos Cravinho entraram na residência junto de Suzane e subiram até o quarto do casal.
Manfred e Marísia foram golpeados diretamente na cabeça de maneira brutal, fazendo com que o patriarca nem tivesse a chance de acordar, morrendo na hora. Já Marísia chegou a acordar ao seu atacada e tentou se defender com as mãos, ato que levou a vítima a ter fraturas em três de seus dedos.
Segundo depoimentos de Cristian, ele chegou a colocar uma toalha na boca de Marísia para que ela parasse de implorar aos seus assassinos que não atacassem seus filhos, que para ela, estavam dormindo. Esse ato com a toalha acabou quebrando um dos ossos do pescoço de Marísia.
Depois de confirmar que o casal estava morto, Daniel colocou uma arma pertencente à Manfred perto de seu braço, para simular uma tentativa de reação contra os supostos assaltantes, e cobriu seu rosto com uma toalha.
"Chegamos em casa, eu entrei e fui até o quarto dos meus pais. Eles estavam dormindo. Aí eu desci, acendi a luz e falei para eles subirem. Fiquei no sofá com as mãos no ouvido. Eu não queria mais que meus pais morressem, mas eu percebi que não tinha mais o que fazer." Disse Suzane em depoimento, logo após ter sido detida.
Não é uma certeza sobre onde Suzane estava enquanto tudo ocorria, ou se ela chegou a ver o corpo dos pais mortos. Segundo a reconstituição, Suzane provavelmente ficou no térreo, onde aproveitou para roubar dinheiro e jóias dos pais, além de ter deixado a biblioteca da casa totalmente bagunçada, simulando a procura por artefatos valiosos, coisa que Daniel também fez, mas no quarto do casal.
Os bastões foram lavados na piscina e tudo usado no crime foi colocado em sacos plásticos, incluindo as roupas dos três. O dinheiro roubado e algumas das joias foram dadas à Cristian como uma forma de pagamento pela participação.
Depois do crime, Cristian foi levado para o apartamento onde morava com a avó e o casal forjou um álibi no motel Colonial, onde pagaram cerca de 300 reais, e solicitaram uma nota fiscal, algo incomum nesse tipo de estabelecimento.
Depois de deixar o local, a dupla buscou Andreas na Lan House e Suzane deixou Daniel em sua casa. Após voltarem para casa, Suzane disse ter "estranhado" as portas da casa estarem abertas, o que fez o caçula entrar na casa gritando pelos pais.
Andreas foi para fora de casa à mando da irmã, e Suzane ligou para Daniel, se juntando ao irmão na frente da casa e "tentando" ligar para os pais. Seguindo com o plano, o próprio Daniel entrou em contato com a polícia, informando que suspeitava que um assalto tinha acontecido na casa da namorada e solicitava ajuda.
Investigações
O policial Alexandre Paulino Boto foi o primeiro a chegar na cena do crime. Durante seu depoimento no julgamento do trio, o assassinato era um "crime de amadores".
Para embasar seu argumento, ele comentou como as jóias, celulares, e até mesmo a arma plantada por Daniel comprovaram isso, já que nenhum assaltante deixaria esses itens para trás.
Outro ponto que o fez estranhar foi o comportamento de Suzane, que lhe questionou sobre como seriam os procedimentos a seguir, após "descobrir" o assassinato dos pais, além de Daniel também ter questionado sobre o dinheiro da família que era guardado em uma caixinha.
O fato de apenas a biblioteca da casa estar revirada, enquanto todo o resto estava em ordem, também causou grande estranhamento nos policiais, já que aparentava ser algo ou montado, ou específico, como se o invasor soubesse onde procurar.
Por volta das 5h da manhã (1h depois da polícia ter sido chamada com a suspeita de assalto), o local já contava com alguns repórteres e vários policiais, assim, o pai de Daniel se encarregou de falar com os presentes, enquanto Suzane e Andreas eram encaminhados até a delegacia para prestar depoimento. Enquanto estavam na delegacia, o comportamento carinhoso e descontraído do casal chamou muita atenção dos policiais, diferentemente de Andreas que encontrava-se em estado de choque.
Como toda a cena de crime parecia uma grande farsa, a polícia se concentrou em investigar pessoas próximas do casal, como seus filhos, empregados, pessoas do trabalho, familiares e colegas. O relacionamento de Suzane e Daniel acabou sendo um dos primeiros a ser investigado, chegando rapidamente ao fato da família não aprová-lo e ter recorrentes brigas ao redor disso.
No dia 4 de novembro de 2002, Suzane realizou seu segundo depoimento aos policiais do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). A intenção do interrogatório era tirar eventuais dúvidas sobre qualquer contradição e levou cerca de 2 horas até ser finalizado.
Cristian foi preso preventivamente poucos dias depois após ter realizado a compra de uma moto nova com dólares, o que fez novamente a polícia chamar Daniel e Suzane para prestar depoimento.
No dia 8 de novembro, os três envolvidos confessaram o assassinato do casal von Richthofen.
Processos
Suzane foi transferida para a Penitenciária Feminina do Carandiru na noite do dia 20 de novembro de 2002.
Ela teve um habeas corpus aceito em junho de 2005, fazendo com que assim, fosse solta da prisão, no entanto, ela foi presa novamente em abril de 2006 após o promotor do caso, Roberto Tardelli, solicitar sua prisão, quando o jornal da Globo, Fantástico, realizou uma reportagem onde mostrava a "farsa" feita por Suzane e seus advogados, onde estes a instruíam a chorar e demonstrar que estava afetada.
O julgamento foi marcado para o dia 5 de junho de 2006 às 13h, localizado no 1° Tribunal do Júri de São Paulo. Os irmãos Cravinhos foram os primeiros a chegar no local, perto das 10h30 da manhã, já Suzane chegou por volta de uma hora depois. No entanto, o julgamento dos três foi adiado, dos irmãos, pois os advogados não compareceram ao júri, e de Suzane, pois seus advogados se retiraram do plenário após uma discussão ocorrer com o juiz por uma testemunha importante não ter comparecido.
Para evitar maiores atrasos, o juiz nomeou um defensor público para os irmãos Cravinhos no caso de seus advogados faltarem novamente, e Suzane perdeu o benefício de prisão domiciliar.
O julgamento durou do dia 17 de julho até o dia 22 de julho de 2006. No primeiro dia, Suzane alegou não ter conhecimento do plano para matar seus pais, comentando que estava muito chapada no momento do crime e não tinha ideia dos planos dos irmãos quando os levou até sua casa. Além de tentar se livrar da cuĺpa, ela também comentou sobre como Daniel era ciumento e interessado apenas em seu dinheiro, o que seriam possíveis motivações para o plano dos irmãos.
Cristian também mudou sua versão durante o julgamento, tentando assumir a responsabilidade para Daniel passar menos tempo preso. Ele também afirmava que, por mais que tentasse convencer o casal de que não era uma boa ideia, eles estavam dispostos a cometer o crime.
Daniel sempre afirmou que a mentora do crime era Suzane. Segundo ele, todos sabiam do relacionamento conturbado da família von Richthofen, onde Suzane era agredida física e verbalmente, além dos abusos sexuais. Então esse fato, juntamente da herança, motivou Suzane a arquitetar o plano e o manipular para realizar sua vontade.
No segundo dia de julgamento, Andreas desmentiu a relação abusiva de Suzane com seus pais, dizendo que em nenhum momento ela foi maltratada como afirmava Daniel. Além disso, ele também comentou sobre o bilhete forjado pela irmã e seu advogado, dizendo que não a tinha perdoado, e não acreditava em seu arrependimento ou na intenção de desistir da herança.
Muitos foram os testemunhos no caso, incluindo policiais, pessoas conhecidas dos réus e os pais dos irmãos Cravinho. A mãe dos irmãos inclusive, disse ter perdoado os filhos, mas que estes mereciam uma punição pelo que tinham feito, além de comentar como Suzane sempre parecia ter medo de viajar com a família, dizendo que "Não sei se ela se fazia de vítima, fazendo dele [Daniel] um instrumento".
No último dia, foram mostradas fotos da cena do crime e um filme da reconstituição, Daniel e Cristian pediram para serem retirados do plenário por estarem chorando bastante, diferentemente de Suzane, mas que também abandonou o plenário.
Para o promotor Tardelli, o comportamento dos envolvidos demonstrava muito a frieza que Suzane tinha com todos os ocorridos e o descontrole emocional que Daniel possuía. Além disso, a promotora demonstrou como os envolvidos agiam após o crime, com o casal protagonizando cenas amorosas em todo o canto e Cristian indo comprar uma moto depois de receber o dinheiro.
O Tribunal do Júri condenou Suzane e Daniel a 39 anos de prisão, mais seis meses de detenção, pelo assassinato de Manfred e Marísia, mas ambos tiveram 1 ano de pena reduzida. Cristian foi condenado a 38 anos de prisão mais seis meses de detenção, mas também teve 1 ano de pena reduzida por ter confessado. A sentença dos réus foi anunciada às 3h da madrugada no dia 22 de julho de 2006, pelo juiz Alberto Anderson Filho.
Daniel e Cristian receberam o direito de regime semiaberto em fevereiro de 2013, já Suzane também o conseguiu em agosto de 2014, no entanto ela solicitou voltar ao regime fechado por medo de represálias, mas ganhou esse direito novamente em outubro de 2015, juntamente das saídas temporárias em feriados.
Em janeiro de 2023, o Tribunal da Justiça de São Paulo informou que Suzane passou a receber o benefício do regime aberto, fazendo com que assim, a ré não precisasse voltar para a cadeia, no entanto, o Ministério Público anunciou que vai solicitar novas avaliações psicológicas para interpor na decisão.
Dentro da cadeia
Em outubro de 2014, Suzane anunciou seu casamento com Sandra Regina Ruiz Gomes, outra detenta que foi condenada por sequestrar e matar um adolescente em São Paulo, além de ser ex-namorada de Elize Matsunaga. Ela assinou um documento de reconhecimento afetivo para viver junto de Sandra (mais conhecida como Sandrão), e segundo pessoas ligadas à elas, o relacionamento foi a motivação de Suzane ter aberto mão de passar alguns dias fora da prisão.
Em 2015, Sandra foi transferida para o Centro de Ressocialização Feminino, o que fez com que o relacionamento das duas terminasse. Pouco após isso, Suzane começou a namorar um empresário do setor de transportes.
Em fevereiro de 2017, ela foi pré-selecionada para utilizar o FIES, para cursar uma faculdade particular no curso de Administração de empresas em Taubaté, mas mesmo com autorização, ela não prosseguiu com o curso. Já em setembro de 2021, a Justiça autorizou a saída de Suzane diariamente para cursar Farmácia.
Visão psicológica
Para realizar a construção do livro reportagem de Ullisses Campbell, o jornalista entrevistou várias pessoas relacionadas com Suzane, incluindo psicólogos forenses e Cristian Cravinhos.
Segundo o Teste de Rorschach, os psicólogos conseguiram analisar que Suzane era manipuladora, dissimulada, narcisista, possui traços de perversidade e é egocêntrica. O jornalista ainda explicou em entrevista para o Aventuras na História que os resultados fizeram com que os especialistas da época não garantissem que Suzane não voltaria a cometer algum crime.
"Os psicólogos, inclusive, dizem que as necessidades de Suzane, as possibilidades dela vir a cometer outro crime, dependem do ambiente que ela vive. Significa que, dependendo da situação em que ela foi submetida, ela pode vir a cometer outro crime."
Um artigo publicado por Vitória Jansem no Jusbrasil, com o título de: Análise do caso Suzane von Richthofen sob a ótica da Psicologia Jurídica, é uma visão extremamente interessante para quem gosta de se aprofundar mais na psicologia do caso, passando por teses de Fiorelli e Mangini, além de Zimerman e Freud, para explicar como funciona toda a magnitude psicológica do caso.
Um trecho inicial:
“Para Fiorelli e Mangini (2012), a agressividade está associada à atividade, o que a torna contrária à passividade. Para estes, expressar agressividade é natural e humano, e habitualmente saudável. [...] O problema é quando a agressividade se transforma em violência, apresentando-se de maneira descontrolada e destrutiva. [...]
O caso de violência explicitado, apresenta um caso de psicopatia, que, segundo Zimerman (1999), é vista como um defeito moral, em que a estruturação psicopática se manifesta por meio de três características básicas, dentre elas o uso prevalente de actings de natureza maligna, acompanhados por uma irresponsabilidade e aparente ausência de culpa pelo que se faz. Além disso, são idealizadas pelo indivíduo, sendo acompanhadas por uma total falta de consideração pelas pessoas que se tornam alvo desse jogo psicopático.”
Mídia
O interesse midiático em cima do caso Richthofen foi tão grande que chegou a ser cogitado a transmissão ao vivo do julgamento na TV Justiça, algo que não é comum no Brasil.
O programa Fantástico, da Rede Globo, passou meses conversando com o advogado de Suzane para conseguir uma exclusiva, e durante a entrevista, Suzane se portava de maneira infantil, além de se vestir de forma infantil, e dizia ter ódio do ex-namorado.
A ideia que eles queriam passar, era que Suzane era uma garota imatura e facilmente influenciável, entretanto as câmeras captaram com os microfones já pré-ligados, o advogado de Suzane lhe instruindo a chorar, o que fez todo o plano cair por terra.
Impacto Político
O caso von Richthofen foi a motivação para o deputado federal Paulo Baltazar, do PSB no RJ, elaborar um projeto de lei que impede condenados por crimes contra familiares tenham acessos ao espólio das vítimas. O projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara em abril de 2006. Também foi aprovado o Projeto de Lei 141/2003, do mesmo deputado, excluindo o autor de crimes contra cônjuges, companheiros, ascendentes ou descendentes da herança.
Envolvimento com corrupção?
Em 2002, Manfred trabalhava como engenheiro para a Dersa, onde recebia por volta de 11 mil reais, enquanto sua esposa desembolsava 20 mil reais com as consultas. Somando os bens que foram herdados da família alemã, o patrimônio von Richthofen era avaliado entre 10 a 11 milhões em valores atuais.
A mentira em relação ao parentesco com o piloto Barão Vermelho foi uma das primeiras a ser questionadas, assim como o envolvimento de seu pai no bombardeio de Guernica na Guerra Civil Espanhola, onde levantaram a hipótese de Manfred também ser alguém apto à mentiras para ter atenção.
O pai de Suzane foi acusado de ter desviado milhões de reais do governo de São Paulo, onde graças a escutas telefônicas foi revelado a corrupção envolvendo contratos bilionários da Alstom, um grupo industrial francês que atua na área de infraestrutura de energia e transporte.
Em julho de 2006, o Ministério Público do Estado de São Paulo chegou a abrir uma investigação sobre o espólio da família e um suposto enriquecimento ilícito com as obras do trecho oeste do Rodoanel. Segundo as investigações, os recursos iriam para uma conta na Suíça e seriam destinados a Suzane. Em 2004 esse caso já havia sido investigado mas considerado inconclusivo, já o novo inquérito sob segredo de Justiça foi novamente arquivado em 2015 por falta de provas.
Conclusão
Atualmente, Suzane encontra- se em regime aberto, assim como Daniel Cravinhos, entretanto, o Ministério Público do Estado de São Paulo se posicionou, informando que vai recorrer à decisão judicial que autorizou a progressão da pena de Suzane. Cristian chegou a ter o benefício do regime aberto, no entanto foi acusado de agressão contra mulher e tentou subornar um policial, o que o fez retornar para a cadeia.
Andreas cursou Farmácia e Bioquímica na USP e fez um doutorado em Química Orgânica na mesma instituição. Ocorreram algumas polêmicas desde o crime, envolvendo um possível envolvimento com drogas por parte de Andreas, mas atualmente este se encontra bem e morando fora do país.
Referências
O Quinto Mandamento - Ilana Casoy (criminóloga)
Richthofen: O Assassinado dos Pais de Suzane - Roger Franchini (ex-investigador da polícia civil)
Suzane: Assassina e Manipuladora - Ulisses Campbell (jornalista, nome anterior Suzane - Crime e Punição; Defesa de Suzane tentou impedir o lançamento mas foi negado)
A menina que matou os pais e O menino que matou meus pais - Maurício Eça




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