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Uma vida perdida na ditadura militar

  • Foto do escritor: Sabrina M. Szcypula
    Sabrina M. Szcypula
  • 25 de jun. de 2023
  • 9 min de leitura

O caso de Ana Lídia Braga, uma criança brutalmente assassinada no período da ditadura com o suposto envolvimento de grandes nomes políticos.



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Uma breve introdução

Ana Lídia Braga era uma menina brasileira de 7 anos de idade que foi sequestrada do Colégio Madre Carmen Sallés no Distrito Federal no dia 11 de setembro de 1973 enquanto ia para suas aulas regulares de reforço no período da tarde. Durante o curto período no qual esteve em cativeiro, Ana Lídia foi torturada, estuprada e morta por asfixia por seu ou seus agressores.

Em 2023, esse hediondo crime de Brasília completa 50 anos, e infelizmente segue sem nenhuma justiça para a vítima já que até hoje segue sem nenhuma solução e ninguém para responder pelo crime. Se ainda estivesse viva, Ana Lídia já teria completado 56 anos de idade.


A curta vida de Ana Lídia

Ana era filha de Eloyza Rossi Braga e Álvaro Braga, dois servidores públicos que trabalhavam no Departamento de Serviço de Pessoal, mais conhecido como DASP, e viviam na capital planejada de Brasília, em um bairro tomado por famílias de classe média e média alta, que era exatamente o caso deles.

A menina de 7 anos estudava no Colégio Madre Carmen Sallés, um colégio conhecido da capital que existe até os dias atuais, encontrado no bairro Asa Norte, próximo da casa onde a garota morava com os pais e os irmãos mais velhos, Álvaro Henrique Braga e Cristina Elizabeth Braga, com respectivamente 18 e 20 anos.

Segundo os pais, ela sempre foi ensinada a não falar com estranhos, aceitar coisas ou acompanhá-los, além de que eles sempre proibiam a filha de sair sozinha na rua, sendo inclusive uma criança bem superprotegida, então não seria do feitio da menina seguir com um estranho sem nem ao menos ter uma reação negativa, que foi o que aconteceu.


O sequestro

No dia 11 de setembro de 1973, Ana Lídia foi deixada na porta do Colégio Madre Carmen Sallés pelos pais às 13h50 para ter suas aulas de reforço regulares. Como de costume, eles se despediram da menina e avisaram que a empregada da família a buscaria às 16h, em seguida indo embora.

Segundo funcionários do colégio, Ana Lídia nunca chegou a entrar na escola para ter suas aulas de reforço, na verdade ela foi vista saindo do local pelo portão lateral com um rapaz loiro, de cabelos longos, alto e magro, que também vestia uma camisa branca e calça verde oliva. Ainda segundo as testemunhas, Ana Lídia não apresentou nenhuma relutância para seguir com o homem, demonstrando que muito possivelmente era alguém com quem Ana já tinha certa confiança.

Como o planejado, às 16h a empregada foi buscar a menina no colégio e descobriu que Ana Lídia não participou das aulas, assim ela avisou os patrões que se mostraram desesperados e rapidamente começaram a procurar pela filha com a ajuda do filho mais velho e namorada do jovem pelos arredores do colégio e do bairro, acionando a polícia logo após iniciarem as próprias buscas.

Às 19h45, o delegado da 2° Delegacia de Polícia, José Ribamar Morais, chegou a receber uma ligação anônima de um pedido de resgate para Ana Lídia, onde solicitaram o valor de 2 milhões de cruzeiros, o que seria equivalente a 250 mil reais atualmente. Ana Lídia chegou a falar no telefone com o delegado, e segundo ele a menina chorava e pedia por sua mãe.

Naquela mesma noite, também foi encontrado uma carta endereçada à Álvaro Braga no supermercado SAB (hoje em dia inexistente) do bairro Asa Norte, onde novamente um pedido de resgate era solicitado, desta vez no valor de 500 mil cruzeiros. O envelope estava escrito à mão, e a carta estava datilografada, no entanto o resgate nunca chegou a ser pago.

Os cadernos e a boneca Suzi de Ana Lídia foram encontrados no mesmo dia perto do Iate Clube, o que fez com que as buscas pela menina ficassem concentradas naquela região.


Final trágico

Às 13h do dia 12 de setembro, o corpo de Ana Lídia foi encontrado pelo policial Antônio Morais de Medeiros em um terreno próximo ao Centro Olímpico da UnB, que naquela época costumava ser um local deserto. A menina estava semi enterrada em uma vala próxima de algumas marcas de pneus de moto, pegadas de possivelmente duas pessoas diferentes e de duas camisinhas usadas.

Ana Lídia encontrava-se nua, com várias marcas de cigarros espalhadas por seu pequeno corpo, os cabelos cortados rente ao couro capilar, virada de bruços com seu rosto enterrado e sinais de abuso sexual nas partes íntimas, que foi comprovado posteriormente pelo legista.

Segundo os peritos que analisaram o corpo de Ana Lídia, a morte da menina teria ocorrido na madrugada do dia 12 de setembro, entre 4h a 5h, e em seu período com seu ou seus assassinos, ela teria sido torturada, abusada sexualmente e morta por asfixia. No entanto, levando em consideração como as partes íntimas da menina tinham algumas características de ferimentos específicos e as camisinhas encontradas no local, foi comprovado que ela também foi abusada depois de ter sido morta.

Na época, o então secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, coronel Aimé Lamaison, disse que “A polícia só descansará quando o responsável pela morte da menor for localizado e preso", entretanto, é de conhecimento público que as investigações tiveram vários pontos de falha e segue sendo um mistério a identidade de seu assassino.


Investigações e Suspeitos

Em primeiro momento, de acordo com os policiais que participaram das investigações do caso, não foi realizada nenhuma perícia na carta que solicitava o resgate de Ana Lídia, assim como nenhuma digital foi coletada.

Outro ponto que a polícia ignorou foram as camisinhas usadas encontradas ao redor do corpo de Ana Lídia, das quais os materiais genéticos nunca foram confrontados com os suspeitos.

Ou seja, desde o início o caso teve várias falhas cruciais não só da investigação policial, como também da perícia. Segundo os militares da época, havia “grupos a serviço de subversão” que estavam se aproveitando de todo o crime de Ana Lídia para realizar falsas acusações e desgastar nomes de figuras importantes do governo da época, isso se dá ao fato de que pessoas muito relevantes politicamente do período militar foram acusadas de envolvimento no caso de Ana Lídia.

O primeiro nome importante que foi levado como suspeito foi o próprio irmão da menina, Álvaro Henrique Braga, de 18 anos na época. Segundo o jardineiro da escola, ele reconheceu o jovem como o rapaz que foi buscar Ana Lídia na porta do colégio e entrou em um carro acompanhado do rapaz mas com outro homem no volante. Essa informação inclusive foi confirmada por outras testemunhas que também viram a cena.

Segundo os pais de Ana Lídia, o filho mais velho estava com eles no carro quando deixaram a garota no colégio, então não seria possível ele ter abordado a criança antes dela entrar nos portões da escola, no entanto várias testemunhas oculares afirmaram que o banco traseiro estava vazio, além de Álvaro ter exatamente as mesmas características que os funcionários deram sobre o rapaz que saiu com Ana Lídia.

O que deixava a possibilidade de Álvaro estar envolvido com todo caso ainda mais forte era seu envolvimento com tráfico de drogas, ter uma moto como foi comprovado que o assassino tinha já na cena do crime, e estar atrás de dinheiro que anteriormente tinha sido negado por seus pais para realizar um aborto na namorada Gilma Varela de Albuquerque.

Outro suspeito envolvido no caso foi Raimundo Lacerda Duque, de 30 anos na época, que trabalhava com a mãe da Ana Lídia e era um conhecido da família, então tinha contato com a criança e isso explicaria ela não ter uma reação negativa com sua presença. Raimundo era alcoólatra, viciado em cocaína, no passado já tinha confessado ser um abusador infantil, além de ser conhecido como chefe do tráfico de drogas de Brasília naquele momento.

Até esse ponto, a polícia investigava a possibilidade de Álvaro ter dado Ana Lídia para Raimundo como uma forma de pagamento, já que também era envolvido com drogas e poderia estar devendo o homem. Nesse plano, a ideia de Duque era pedir um resgate aos pais da menina e então sanar a dívida com Álvaro e o rapaz mais jovem também conseguir um pouco de dinheiro para o aborto da namorada, mas em algum momento os planos mudaram, talvez por efeito da cocaína ou outras drogas, e assim Raimundo torturou, abusou e matou a criança.

Mas com o avanço da investigação da polícia, outros nomes foram agregados como suspeitos no caso, sendo eles Eduardo Ribeiro Resende, de 21 anos conhecido como Rezendinho, filho do senador Eurico Rezende, e Alfredo Buzaid Júnior, de 17 anos conhecido como Buzaidinho, filho do Ministro da Justiça Alfredo Buzaid.

Segundo as investigações policiais, os dois jovens também estariam envolvidos com tráfico de drogas e teriam auxiliado no sequestro da criança. Assim, Ana Lídia teria sido levada para o sítio do então Vice-Líder da ARENA no Senado, Eurico Resende em Sobradinho, onde segundo testemunhas, Álvaro e sua namorada deixaram a criança com Raimundo, Eduardo e Alfredo como uma forma de quitar sua dívida de drogas. Lá, Ana Lídia teria sido estuprada pelos filhos dos políticos durante 17 horas e sido torturada e morta. Assim, quando o irmão retornou ao sítio, já que a ideia inicial era apenas conseguir um resgate mas não fazer mal a Ana Lídia, teve a surpresa de encontrar a irmã morta.

Mesmo com Eduardo e Alfredo sendo considerados suspeitos, nenhuma denúncia formal jamais foi realizada contra eles, e assim surgiram as falas dos militares que apoiavam a ideia de que as acusações eram apenas uma forma de sujar o nome do governo da época.

Álvaro e Raimundo foram presos em 1974 e julgados no ano seguinte mas foram absolvidos por falta de provas, provas estas que na verdade a polícia apenas ignorou. Assim como as provas anteriormente ditas foram ignoradas, as marcas de pneus nunca foram comparadas nem com os pneus da moto de Álvaro ou com os pneus da moto de qualquer um dos outros suspeitos, assim como o álibi dado por Álvaro, dizendo que estava no Detran na hora que a irmã foi sequestrada também nunca foi checado.

Buzaidinho não chegou nem a comparecer para depor, mandando seu advogado no lugar e escrevendo uma Carta Precatória quando foi morar em São Paulo negando sua participação no crime, porém ele só foi desligado do ocorrido quando o motorista de sua família afirmou ter levado o jovem ao médico naquele dia, então ele não poderia ter ajudado a sequestrar a menina.


Interferência da Ditadura Militar

A ditadura militar presente na época do ocorrido foi um grande empecilho na descoberta do verdadeiro assassino de Ana Lídia.

No dia 20 de maio de 1974, jornais, rádios e estações de televisão do país receberam um comunicado do Departamento de Polícia Federal dizendo que: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação através dos meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referências e outras matérias sobre o caso Ana Lídia e Rosana.” O episódio foi citado por Jávier Godinho em sua obra “A Imprensa Livre”, e essa censura veio decorrente do aparecimento de Alfredo e Eduardo como suspeitos do crime.

Inclusive, a Rosana da qual o comunicado se refere, diz respeito à Rosana Ferrari Pandim, uma menina de 11 anos que desapareceu em Goiânia, Goiás, enquanto estava indo para a escola, e até os dias de hoje não se tem maiores notícias sobre seu paradeiro. Também não se sabe o verdadeiro motivo do Departamento de Polícia Federal ter vetado qualquer informação referente à menina.

O suposto crime de Buzaidinho viria como uma mancha para o ministro, assim como uma afronta à imagem do regime militar, então mesmo sem uma prova concreta, o aparecimento de nomes relevantes na política desacelerou as investigações, principalmente pelo ministro Alfredo Buzaid ser reconhecido como um importante jurista e o grande “pai” do Código de Processo Civil de 1973.

Alfredo também ajudou a redigir e defendeu o Ato Institucional Número Cinco (AI-5) em 1968, que consistia em um conjunto de 17 decretos emitidos pelo governo militar onde suspendeu garantias constitucionais, cassou alguns mandatos políticos, transformou movimentos sociais em crimes e aprovou uma censura à imprensa, perseguição polícia de pessoas que eram consideradas “subversivas”, o que consequentemente se tornou as várias torturas e mortes sob o comando militar.

Ou seja, era um nome muito relevante e importante para ser envolvido dentro de um escândalo em plena ditadura militar.


Reabertura do caso

Após 13 anos do crime, o processo foi reaberto por surgirem novidades sobre o assassinato da criança.

Segundo a repórter Mônica Teixeira, da Vídeo Abril, ela tinha o conhecimento de testemunhas que poderiam provar que o autor do crime era o filho do agora ex-Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, e que apesar de ser noticiado que o jovem havia morrido em um acidente dois anos após o crime, Mônica garantiu que ele ainda estava vivo em 1985.

Após essa declaração, de uma maneira estranha, ao que as testemunhas eram chamadas para depor, antes mesmo de conseguirem falar com a polícia elas morreram e não foi permitido exumação do corpo, foi assim que o processo de Ana Lídia foi novamente fechado por falta de provas.

Em 1986, a exumação do corpo de Alfredo Buzaid Júnior foi autorizada, mas o corpo exumado foi o de Felício Buzaid, avô do acusado e falecido em 1966. Em uma segunda tentativa, o segundo cadáver supostamente de Alfredo foi entregue ao IML. Por algum motivo que nunca teve uma explicação, os dentes do cadáver estavam removidos, o que impossibilitava o reconhecimento da arcada dentária que comprovaria que aquele era Alfredo.


Uma triste conclusão

O caso segue sem nenhum desfecho e acusados pelos crimes. Em homenagem à Ana Lídia, uma região do chamado Parque da Cidade passou a se chamar Parque Ana Lídia. Em decorrência do seu fim, o túmulo da criança é um dos mais visitados do cemitério.

Buzaidinho morreu supostamente no acidente enquanto voltava de uma corrida mobilística aos 19 anos em 1975, Rezendinho deu um tiro em seu próprio ouvido aos 40 anos em 1990, em seu apartamento em Vitória, Raimundo faleceu em 2005 após complicações derivadas de seu alcoolismo e Álvaro é o único que continua vivo, agora morando no Rio de Janeiro.


Fontes


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